30 de jan de 2011

Da esperança de amor,

Ela sorriu amargamente. Sentia um profundo ódio dentro de si. Seus olhos reviravam-se por sobre a cabeceira da cama, procurando a foto colada com fita na parede.
Perambulava com seu indicador sobre o corpo esbelto da garota. Era uma foto antiga. Era uma foto sua.
O marido, que dormia ao seu lado, parecia estar em transe. Remexia-se e conversava durante o sono.
Fazia muito tempo que não a desejava. E ela sabia disso. Ambos sabiam.
Foi então que ela pensara na vida lá fora. E pensara de novo. Por muito tempo.
Deitada na cama, ao som das bufadas abafadas do marido, fitando o teto branco do quarto, ela pensou no divórcio. Viu-se saindo dali e alugando um pequeno apartamento no centro.
Viu-se fazendo caminhadas diárias pela manhã, e cruzando por muitas mulheres com cachorros e alguns homens suados. Pensou em ter um cãozinho. Pensou em ter até mesmo um mp3 para ouvir as músicas que gostava.
Viu-se conhecendo pessoas novas e fazendo novas amizades. Recomeçando a vida que perdera com o marido.
Sentiu uma satisfação. Uma felicidade que não sentira por anos. Era um sabor delicioso, que havia esquecido. O sabor da vida.
Então, em meio aos pensamentos, ouvira os passos pesados do homem que a levara para os dias amargos e cansativos.
Levantara e fora fazer o café. Não havia tempo para pensar. O tempo dos sonhos só voltaria na próxima noite, enquanto tentaria dormir, com o ronco do marido em seus ouvidos.

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