21 de dez de 2010

Das pétalas de sangue,

 Foi tocando as grades enferrujadas devagar. Sentindo o cheiro da tinta já gasta, das flores já murchas, da chuva que molhara a terra. Deslizava os dedos devagar pelas barras de ferro. Fazia movimento sutis e até piedosos em frente a casa.
Então, deixou a mão cair devagar sobre suas pernas. Levantou os olhos para o jardim que um dia estivera coberto de rosas vermelhas, e começou a caminhar. Os olhos dançavam um cântico enegrecido da dor, enquanto conidavam a saudade e o desespero para juntar-se a eles.
Os lábios trepidavam, mordendo-se pelos cantos, quase que imperceptivelmente.
Segurou a corda bem firme. Com gestos leves, foi envolvendo-a em seu pescoço, como quem veste o mais lindo vestido da mais nobre seda pela primeira vez.
No fim do jardim, um par de olhos desesperados a observava. Não movia um músculo sequer, embora sua vontade fosse arrancá-la de lá. Ele sabia que não havia mais nenhuma saída. Ela decidira assim. E assim seria.
Subiu no banquinho usado pelas empregadas, para retirar as maçãs mais do topo. Então olhou para o céu, e para o homem honroso que a observava, e sorriu, como quem consentia uma grande escolha.
Ergueu-se na ponta dos pés, e com um deles, derrubou o banquinho.
Os olhos desesperados agora sofriam. Fitou-a mais um tempo, antes de ir embora. Em alguns passos adiante, voltou-se novamente para a dama, e percebeu que ela sorria. Um lindo sorriso, afinal. Um sorriso eterno- pensara.

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