15 de out de 2009

Imorredouro






O sol não estava lá. Não havia resquícios dele . Nuvens espessas e grossamente escuras tomavam conta da paisagem paradisíaca do lugar naquele dia. Uma brisa quente fazia com que a grama ainda não aparada roçasse em minhas pernas estendidas ao longo do gramado. Era apenas eu e o mundo. Mais ninguém.

Poemas de amor dançavam em minha imaginação, e pouco a pouco desciam por entre meus dedos, parando no papel. O dia ia se transformando em noite enquanto eu me transformava em nada.

Estava envolvida em pensamentos quando vi pousar ao meu lado uma pequena pipa colorida. Na outra ponta do cordão encontrava-se um garoto extremamente tímido devido à situação.

Percebi que poderia fazer um bem para minha consciência confortando-lhe com um carismático sorriso. Mas porque faria isso? Ele me devia desculpas pelo susto. Afinal, se eu tivesse problemas cardíacos teria morrido ali mesmo.

Mas por outro lado, exaltou-se a parte angelical de minha alma, tomando conta de mim, só percebi segundos depois que sorria. Ele aproximava-se calmamente enquanto as batidas do meu coração saltavam com tanta força que acreditei que fosse perdê-lo ali mesmo.

Eu o conhecia! Mas de onde? Não sabia ao certo. Talvez fosse parecido com alguém. Mas não, não era isso. Eu o conhecia muito bem. Bem demais para ser apenas um engano.

Alguns segundos depois ele já estava sentando ao meu lado, pedindo desculpas pelo incidente. Para a nossa surpresa, eu sorri e disse:

- Ta tudo bem Otto.

Ele me fitou por alguns instantes, inseguro. Depois resolveu acrescentar:

- Meu nome não é Otto.

- Eu sei que não. Esperava que me corrigisse, então não precisaria perguntar seu nome.

- Podemos começar de novo então.

- É mais fácil você dizer logo seu nome, não acha?

- Oliver.

- Cheguei perto.

- Nem tanto.

- Otto é o nome do meu cachorro.

- Por que me chamou assim então?

- Você é parecido com ele. Ainda mais quando faz essa cara de desentendido.

- Espero que ele não tenha pulgas!

O silêncio paira no ar por alguns instantes. Nós dois estamos pensando em coisas bem distantes dali.

- De que?

- De que o que?

- Oliver de que?

- Ramalho.

- Hum.

- Sem graça, eu sei.

- Se eu ficar contigo o sobrenome do meu cachorro vai ser Ramalho. Otto Ramalho... combina bastante.

- E o teu, combina?

- Não. Fica brega.

- Como faz então?

- Tu pode casar com o Otto, assim meu nome continua o mesmo.

- Ele não faz meu tipo.

- Como sabe? Nem viu ele!

- Digamos que não sou chegado em focinhos molhados e rabos peludos.

- Acostuma com o tempo.

- Onde tu mora?

- Numa casa.

- Legal. Eu moro em uma também. Temos algo em comum.

- Engraçadinho.

- Obrigado.

- De nada.

- É sempre assim?

- Sempre assim o que?

- Você...é sempre assim sincera?

- Herança de família. Quando a gente casar vai ficar um pouco pra ti também.

- A gente? Eu não ia casar com o Otto?

- Ia, mas eu gostei de ti.

- Gostou?

- É surdo?

- Desculpe.

Mais um momento de silêncio acontece. O vento começa a soprar trazendo sorrisos. Não queria ir embora, estava extremamente à vontade.

- Qual teu nome?

- Alice.

- De que?

- De carne e osso.

- Sei. Outra coisa que temos em comum!

- Vai ser bom.

- O que?

- Casar contigo. Vai ser bom.

- Por quê?

- Não sei. Só sei que vou gostar.

- Fede?

- Não e tu?

- Me referia ao teu cachorro.

- Ah...

- E então, fede?

- Mais do que a morte.

- Isso é muito?

- Depende.

- De que?

- Do dia. Ás vezes a morte fede mais, às vezes menos. Entende?

- Sim... Quer bala?

- Obrigado.

- Ta acabando.

- Compra mais...

- Não, o dia.

- Amanhã tem mais vinte e quatro horas a seu dispor.

- Ou não.

- Por quê?

- Talvez eu não esteja mais aqui amanhã. Talvez eu não esteja mais aqui hoje.

- Sei... Vida violenta.

- Não... Talvez eu mude de cidade.

- Por quê?

- Meus pais querem.

- Sei... Mas tu volta?

- Acho que não.

- Que pena.

- É.

- O Otto vai sentir muito.

- Eu mando um cartão no dia dos namorados.

- Pro Otto?

- Não, pra ti.

- Pra mim por quê?

- Quero te dar o Ramalho um dia.

- Só se tu aceitar o Romanatto.

- Eu volto.

- Quando?

- Não sei, mas volto.

- Eu vou estar aqui.

- Eu sei que vai.

- Tchau.

- Tchau.

Oliver fechou os olhos e seu último dia na Terra foi selado com um beijo de amor eterno. Alice vai esperar por Oliver amanhã, mas ele não virá. Nem na manhã seguinte. Nem durante vinte cinco anos, até que Alice sofra um acidente no trânsito e encontre-se com Oliver, para sempre.


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