15 de out de 2009

Espiral


Apontara-lhe o dedo indicador no rosto, a um centímetro do nariz, causando-lhe ódio e desconforto. Gritava para todo aquele que quisesse ouvir todas as façanhas que a mulher fizera debaixo de seu nariz, e que agora servia-lhe de explicação para o belo par de chifres sobre a cabeça.

Talvez não fosse tão engenhosa como pensara. Havia sido pega no ato da traição, enrolada sobre os lençóis com o vizinho da casa laranja. O marido não entendia o que poderia a ter levado a isso. Um homem tão bem estruturado como ele não conseguiria jamais entender o que fizera Jack para atrair a ingênua esposa do vizinho ocupado.

A discussão entre o casal acontecia calorosamente no quarto, onde Silvana encontrava-se enrolada nos lençóis florais que comprara com o dinheiro da aposentadoria do marido, quatro dias antes de ser descoberta. Estava de pé ao lado da cama ouvindo os gritos misturados com lágrimas e soluços do marido. Jack estava deitado sobre a cama, coberto apenas pela escuridão da noite, que não permitia maior visão do que alguns palmos da luz do luar. Coçava o bigode calmamente enquanto tentava assistir ao filme que passava naquela madrugada em uma emissora de televisão. Quando Murilo exaltava a voz no calor da discussão, apenas apertava fortemente o botão de volume do controle remoto que acomodara sobre a barriga.

O comportamento indiferente do amante fazia Silvana indagar-se sobre a verdadeira importância que tinha na vida de Jack. Talvez devesse esquecê-lo e ajeitar-se no casamento antes que trágicos acontecimentos viessem a se fazer naquela mansão da rua Lisenberg, onde fora palco para inúmeras lendas de assassinato que antecederam a vinda da família de seu excelentíssimo marido Murilo Belato. Mas agora todos os pensamentos iam por água abaixo. O marido sabia de tudo.

Naquele mesmo dia, como em todas as tardes de outono Silvana ficara sozinha em casa, enquanto o marido jogava pôquer com seus antigos colegas de faculdade, em um barzinho perto do aeroporto. Seu fascínio por aviões o fizera seguir uma longa carreira como piloto da aeronáutica na juventude. Agora no auge de sua vida mansa, aproveitava as tardes para divertir-se e observar os aviões chegando e partindo a todo momento. Entretia-se pelas ruas o dia inteiro, despreocupado com os afazeres da mulher em casa.

Foi assim durante quinze anos consecutivos, até aquela tarde de 18 de abril quando a mudança dos Canova chegara à casa ao lado. Murilo já estava nas ruas quando o caminhão com os móveis do casal chegara. Como era costume naquele bairro, Silvana foi até a rua cumprimentar os novos vizinhos. Um homem muito bem apresentado sorria-lhe com o canto da boca enquanto aproximava-se. Tinha um belo par de olhos verdes que encantavam qualquer mulher, e sapatos muito bem engraxados que na certa haviam lhe custado uma grana alta. Empurrava calmamente uma senhorita moribunda sobre uma cadeira de rodas velha. Trazia consigo um ar de cadáver, tanto no tom amarelado da pele quanto na voz trêmula e baixa que ecoava pela garagem vazia da nova casa. Conversaram um pouco com Silvana, em frente ao portão da residência, depois foram para dentro da casa organizar o que faltava e despediram-se educadamente da boa anfitriã.

Todas as manhãs o novo vizinho saía até o jardim para regar as flores, e quase sempre acenava rapidamente para a jovem moça de longos cabelos dourados e vestido curto, que esperava ansiosamente a volta de seu marido.

Dos acenos sucederam-se conversas e destas criavam-se laços constituídos pela carência de ambos. Ele havia perdido a mulher há poucos dias, ela perdia o marido há quinze anos para o pôquer. De carências surgiu o desejo, maldito sentimento que tomava-lhe a alma a cada sussurro de pecado que cometiam.

Passaram quinze anos em encontros secretos. Todos os dias depois do café, quando Murilo seguia até o aeroporto, Silvana fugia até a casa vizinha ao encontro de seu fogoso amante Jack. Durante todos os anos de traição, ela jamais atrevera-se a levá-lo a sua casa e mais precisamente a sua cama.

A cada dia que passava sentiam-se milagrosamente satisfeitos com a vida que levavam. E já não mais consideravam-se amantes do pecado, mas sim marido e mulher. Murilo nem podia imaginar os feitos da mulher durante suas saídas. Nunca sentira durante aqueles cento e oitenta meses seus laços afetivos serem corroídos com o desgaste do amor e paciência, e com a constante presença da mesmice.

Silvana sempre culpava-se pelas traições, chegara até a largar da vida sacana, o que não durou por muito tempo depois que o marido esquecera-se de seu aniversário de quarenta e nove anos. Sempre fora muito vingativa, e naquele dia após a saída do marido, ligara para que o amante fosse até sua casa.

Aqueles quarenta e nove anos foram manchados pela lembrança de sua maior sacanagem. Estava em atos sobre os lençóis de seda que comprara naquela semana, e entre risadas e suspiros não ouvira os passos do marido que chegava em casa mais cedo, trazendo-lhe um bolo com a seguinte frase: PARA MINHA SILVANA.

O maior erro da vida de Murilo fora aquela surpresa de aniversário para a mulher. Talvez se tivesse dado-lhe logo o presente e não tivesse fingido o esquecimento do aniversário não encontraria a mulher sobre a cama com o vizinho da mansão ao lado, que o vencera em diversos jogos de pôquer no barzinho.

Parecia-lhe que a rivalidade entre os dois fazia-se também em respeito à Silvana. Já não bastava a Jack tomar-lhe dinheiro no jogo, tinha também de levar sua ingênua esposa para a cama, a sua cama!

Estavam lá os três, naquele quarto escuro, em uma noite de outono. Murilo exaltou-se por alguns minutos com a mulher. Jack esquecia de toda aquela situação, enquanto voltava toda sua atenção para o filme na televisão.

Faziam 30º naquela madrugada. Murilo percebera que tudo aquilo não o levaria a nada. Calou-se por alguns minutos, depois com voz baixa convidou os dois a vestirem-se e irem até a cozinha. Assim o fizeram. Dois minutos depois, encontravam-se os três degustando o bolo de aniversário de Silvana.





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