30 de jul de 2010

O Prada vermelho-fogo

Os passos de Janet Lourries ecoavam pelos becos de alguma cidade de Connecticut. Um andar forte e um gênio egocêntrico. O salto quinze de seu Prada vermelho-fogo batia incansavelmente nas calçadas apenas acimentadas da rua.


Alguns homens escondiam-se entre as latas de lixo para fumar e beber à vontade. Outros aguardavam novas vítimas. Eles poderiam ter acabado com Janet naquela noite, mas nenhum homem fora inteligente o suficiente para vence-la.

Era alta, morena e muito magra. Vestia um casaco preto que cobria-lhe os joelhos. Tinha uma voz doce e um olhar forte. Já fizera mais de oitenta e cinco vítimas. Todos homens, entre vinte e trinta e cinco anos.

Ninguém sabia por que Janet arriscara-se entre os becos sujos da cidade. Era uma mulher poderosa e rica. Fora condenada a trinta anos de cadeia, pelos assassinatos em série, mas nenhum dos guardas lembrara-se de chavear sua cela naquela noite.

De fato, todos sabiam que nenhum homem resistira aos encantos da senhorita Lourries, exceto um marceneiro, que morava em um cortiço velho e sujo de Connecticut.

Edmund Thompson. Vinte e oito anos e quatro gatos. Trabalhava todas as manhãs em seu refúgio. Criava as mais incríveis engenhocas feitas em madeira. Teria um futuro promissor nas grandes metrópoles. Mas ali, naquele cortiço, não passava de um homem maluco. Seus dias eram dedicados à Elizabeth Morgan, uma jovem senhora de setenta e sete anos.

Todas as tardes Edmund levava a senhora Morgan para uma longa caminhada. Era um homem simples e habilidoso, sem mais a oferecer.

Janet o conhecera aos treze anos. Tinha problemas de insônia e recentemente havia descoberto que acalmava-se com borboletas azuis. Seu pai acreditara que em algum lugar do estado alguém saberia reproduzir uma imagem idêntica à uma borboleta original. Consultaram os mais renomados marceneiros e decoradores, mas nenhum trabalho havia dado resultado. Sua última esperança era um garoto de dezoito anos que morava em um dos becos da cidade. Diziam que Edmund possuía mãos mágicas. Seus trabalhos eram incrivelmente perfeitos.

Então, o senhor Russel fora pessoalmente encomendar-lhe a obra. Oferecera-lhe muito dinheiro em troca de um bom trabalho. Edmund não dissera nada, apenas fizera-lhe um gesto sutil para que sentasse.

O garoto sumiu entre as cortinas já encardidas da sala. Depois de quarenta e cinco minutos, voltara com um par de borboletas azuis. Eram a mais perfeita criação. Russel acreditara por um segundo que se as soltasse das mãos, voariam por entre as paredes da sala.

Estava encantado. Como prometido, já puxava seu dinheiro do bolso, quando Edmund o deteve. Negara qualquer tostão do empresário.

Dois meses depois Janet voltara ao cortiço para agradecer-lhe pessoalmente pelas borboletas. Contara-lhe que agora conseguia dormir melhor e quase a noite toda.

A senhorita Lourries havia ido pessoalmente até o cortiço apenas para agradecer-lhe o presente. Todos as bocas da cidade murmuravam espanto com a notícia. Edmund era um garoto agradável, e Janet dera-se conta disso, na primeira vez em que vira seus olhos verdes parados, admirando-a.

Todas as tardes de domingo a senhorita Lourries aparecia nos velhos becos da cidade para ver o garoto do cortiço. Ele fizera-lhe borboletas de todas as cores, ensinara-lhe a soltar pipa e assobiar. Eram grandes amigos agora.

Mas ao senhor Russel Lourries não agradava nem um pouco a idéia de sua única herdeira envolver-se com um menino mal trapilho dos becos. Embora fosse um bom garoto, como bem sabia o empresário, não tinha o que oferecer a sua filha.

Foram esses pensamentos que o fizeram afastar Janet dos velhos becos. Mal sabia Russel que o mal já estava feito.

A garota mais desejada por todos os herdeiros milionários da cidade havia se apaixonado por um garoto que não tinha sequer onde cair morto.

Em uma tarde do verão de 75, Janet decidira declarar-se abertamente à Edmund. Ele a rejeitara educadamente, pedindo-lhe prudência com tais palavras e atos. Mas a garota já o desejava e seria inútil proferir-lhe qualquer palavra que não fosse um sim.

Janet estava convicta de que conseguiria o que tanto queria. Estava errada. Edmund negou-se a ter qualquer envolvimento com a burguesa. Dizem as más línguas que a garota ficara arrasada e quebrara todos os presentes com as próprias mãos.

Ninguém na cidade voltou a ver a senhorita Lourries durante oito anos. Fora para a França estudar moda.

Na primavera de 1983, Janet Lourries voltara deslumbrante. Agora com vinte e um anos bem dispostos em sua silhueta. Todos esperavam que voltasse noiva de Paris. Mas isso não acontecera. Janet mostrava-se indiferente a todos os homens que dirigiam-lhe a palavra. Em algumas conversas casuais, deixara escapar um certo desprezo para com o sexo masculino.

Mas foi no dia vinte e nove de agosto do mesmo ano que o primeiro assassinato acontecera.

Finalmente quando a senhorita Lourries fora liberada pelo seu psicólogo das consultas, todos, inclusive Russel, acreditavam que Janet estava curada de sua amargura. Decidiram arrumar-lhe um pretendente para a estréia de um filme, no cinema da cidade. A garota não se opôs a nada.

Ninguém sabe exatamente o que acontecera naquela noite. Mas as más línguas da cidade dizem que Janet não suportou as tentativas do garoto de beija-la. Fora encontrado na manhã seguinte agonizando com um salto quinze de um prada vermelho-fogo incrustado no peito. O garoto não resistiu. Morrera ainda naquele dia.

E assim seguiu-se os outros oitenta e quatro assassinatos. Janet viajara pelo mundo inteiro, e todos os homens que cruzaram seu caminho foram assassinados da mesma forma. Em todos os casos um Prada vermelho-fogo perfurava a vítima. Com o tempo, a garota usava formas mais certas para mata-los. Embora um furo no peito fosse o suficiente para provocar uma grande perda de sangue, e consequentemente uma morte, em alguns casos, talvez por pena, a senhorita Lourries utilizara punhais e armas.

Agora estava de volta aos becos sujos de algum lugar em Connecticut. Sentia-se com treze anos outra vez. Uma onda de bons sentimentos instalou-se em Janet.

Sentia pena de si mesma por ter sido rejeitada. O ódio tomava-lhe o corpo. O salto quinze de seu Prada vermelho-fogo fazia ecoar batidas pelos becos. E então, ela vira Edmund novamente. Estava brincando com suas borboletas de madeira. Ainda era lindo. Ainda era encantador. Diante do garoto do cortiço, a senhorita Lourries deixava de ser poderosa. Voltava a ser menina. Uma menina indefesa outra vez. Isso lhe causara ainda mais remorso.

As batidas do sapato contra o concreto aumentavam o ritmo a cada passo que aproximavam-se de Edmund. Então, ele a vira ali. Caminhando em sua direção. Sorrira-lhe amorosamente. Pela última vez.

A senhorita Janet Lourries fora vista naquela noite voltando para casa com apenas um Prada vermelho-fogo nas mãos. A cinderela burguesa havia perdido um pelos becos de algum lugar em Connecticut.

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