8 de abr de 2010

Sonholite


Seis e meia da manhã e eu ainda fitava o teto. Já havia contado inúmeras vezes o número de mosquitos que residiam ali, entre o ventilador sujo de poeira e o guarda-roupa marrom escuro. Treze ao todo. Atribuí a cinco deles, o papel de homem da casa. Outros cinco, seriam as esposas, mais duas jovens encalhadas e um gay, para completar.
Fui criando histórias de amor e ódio entre meus protagonistas da novela da madrugada. Aquilo me distraiu por um bom tempo, mantendo-me longe das tragédias cotidianas.
Eram mais ou menos quatro e meia, quando um vento forte apareceu lá fora. Foi batendo devagar no vidro fechado, pedindo permissão para entrar. Tocou a campainha por um longo tempo. Não o desejei, mas mesmo assim, em algum cantinho da janela, deram-lhe espaço para tomar conta do quarto.
Aquele frio típico de inverno me lembrava de alguns tempos em que eu comia as frutas do rei, mas não sabia que era feliz. Fui sentindo uma mistura de tristeza e alegria. E depois, uma paz, uma calma de curativo sobre machucado, uma certeza de melhora.
Acho que o tempo realmente não cura nada. Talvez a nossa falta de memória ou nosso conformismo que façam esse trabalho. Mas para aqueles providos de consciência, tenho a triste notícia de que a culpa nunca o abandona.
Não sei bem, mas tenho me sentido distante do mundo real. Ás vezes estou ali, ouvindo e vendo alguém, mas de repente, nada daquilo faz sentido, e tudo que ouço e vejo, são lembranças vagas de um sonho ou outro.
Minha teoria, é que os sonhos nunca se perdem na realidade. Eles ficam esquecidos por algum tempo, mas quando cansam e resolvem aparecer, vem nos enchendo de perguntas e ideias, fazendo-nos parar o tempo para analisar tudo aquilo.
Acho que tenho sonholite aguda. Vivo no mundo da lua. O problema, é que descobri que lá tem muito mais gente, muito mais história e muito mais graça que aqui, nesse mero mundinho humano. Onde todo mundo luta por coisa nenhuma, ri sem achar graça, grita sem ter voz e pensa sem usar o cérebro.

2 comentários:

  1. MINHA QUERIDA ALUNA TANISE;
    ADOREI! ME ENCANTEI PELO TEXTO "SONHOLITE". ACHO QUE O AUTOR(A) FOI MUITO SENSÍVEL, INTELIGENTE, HUMANO E CRIATIVO.

    UM ABRAÇÃO DO PROFESSOR: ELEMAR GOMES

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