15 de nov de 2009

Psicose



O sol manifestava-se radiantemente naquela tarde de dezembro. Fora um dos dias mais belos que Ilópolis já estampara nas fotografias mentais dos cidadãos. Dizem que o clima nos afeta constantemente. Eu acreditava nisso até descobrir que somos responsáveis por aquilo que nos molda.

O pior dia de minha vida toda acontecera com um pano de fundo azul celeste e uma brisa agradável. Não sei ao certo o que pensar de São Pedro. Acho que ele andara decepcionado comigo, pois escolhera justamente o pior dia para estampar uma beleza rara em minha cidade.

Dizem que os santos não se deixam levar por sentimentos ruins. Eu duvido. Tenho para mim como verdade que andei desrespeitando o ego de algum deles.

Sempre pensei que aqueles cartões-postais eram obra de um bom e exagerado photoshop. Aquela tarde porém, provavelmente teria servido de inspiração para fotógrafos de plantão...

O dia seria perfeito se eu tivesse continuado embaixo das cobertas por mais tempo. Se bem que isso não mudaria o fato de eu ter perdido minha sorte em algum lugar.

Acordei mais cedo do que de costume. O estranho é que não havia motivo algum para isso. Algo me levara ao parque naquela manhã. Não havia ninguém além de mim e um mendigo. Confesso que senti vontade de puxar um papo com ele. Mas não tinha tempo. Não tinha coragem. Não tinha motivação.

Sentei-me em uma pedra fria e escondida perto do banheiro masculino. Continuei ali por um bom tempo, esperando aparecer algo no mínimo motivador para me provar que minha intuição não andava falhada como todos os outros sentidos.

Não aconteceu nada além de brigas entre maconheiros, treinos de futebol e corridas curtas para perda de peso. Decidi que a partir daquele momento meu sexto sentido estava oficialmente aposentado.

Estava errada. Completamente errada. Talvez a única coisa que ainda funcionasse em mim era meu sexto sentido. Ou isso ou o meu anjo da guarda resolvera voltar de férias para me proteger contra os males da vida novamente.

Estava pronta para ir embora quando avistei ao longe um casal que se beijava. Achei tudo tão romântico que decidi esperar mais um pouco. Senti um incômodo dentro de mim, que se transformava em nervosismo, calafrios, tremedeira e tudo mais que tinha direito.

Fitei minhas mãos por alguns segundos. Elas tremiam tanto quanto um massageador a pilhas. Algo estava errado. Eu sabia.

O casal separara-se. A menina seguia uma trilha em direção ao fim do parque. O garoto aproximava-se de mim aos poucos. Ao vê-lo assim de longe, lembrei-me do meu namorado. Senti a saudade apertando meu coração. Fechei os olhos.

Não o via há um mês. Depois das más notas trimestrais na escola, seus pais o encaminharam para uma escola muito cara da capital. Ficaria interno durante o ano letivo. Voltaria nas férias de verão assim que fosse liberado.

A separação parecera um bicho de sete cabeças na primeira vez que fomos avisados. Acabamos aceitando obrigatoriamente essa situação. Antes de seguir viagem, nos encontramos para uma última despedida. Ele segurara minhas mãos entre as suas, e com os olhos grudados nos meus, me fizera o pedido mais apaixonante que eu poderia esperar:

- Me espera. Eu volto assim que puder. Vou lembrar de ti durante todos os segundos que estivermos separados. E quando voltarmos a nos ver, toda essa falta valerá a pena.

Meus olhos encheram-se d’água. Aquilo doeria demais em mim. Estava prestes a desabar quando ele segurara-me entre seus braços, em um abraço desesperadamente apaixonado.

Eu o amava e o esperaria até o último dia de minha vida. Mas naquele dia, tudo parecia um pesadelo. Até mesmo os sorrisos pareciam-me lágrimas de saudade. Não sabia ao certo quanto tempo aquilo duraria. Só sabia que desejava muito que acabasse depressa.

Despertei das lembranças de repente. Não havia ninguém no parque. O céu fechara-se com nuvens carregadas de chuva, e a brisa quente avisava a tempestade que estava por vir.

Não vi quem era o garoto que aparecera lá. Meus pensamentos me levaram para tão longe que nem percebi o tempo passando.

Estava na hora de voltar. Já passava das três horas da tarde. Segui caminhando pelas ruas desertas da minha cidade. Em pouco tempo a chuva já mostrava-se presente.

Aquilo me deprimira. Faltavam duas semanas apenas para rever Alisson. Então ficaríamos juntos novamente. Ele me abraçaria dizendo o quanto estava feliz em estar ali. Eu diria a ele que sofrera com aquela distância. Nós nos sentiríamos leves e tudo ficaria bem. Tudo ficaria certo de novo, como deveria ser.

Eu sabia que não.

Os quatorze dias passaram e aqui estou eu, no banco de uma rodoviária, às seis e meia da manhã, esperando pelo reencontro. Não há ninguém além de mim e meus pensamentos. Nem mesmo os pombos deram-se ao trabalho de acordar tão cedo.

Por incrível que pareça, não estou ansiosa para vê-lo. Sinto-me mais incomodada com essa solidão que me assola do que com a espera para reencontrá-lo. Queria estar acompanhada por milhares de pessoas. Queria sentir o calor humano sem precisar me relacionar com o mundo. As coisas seriam mais fáceis assim. Não haveria dor, nem espera. Não haveria angústia, nem traição. Eu não me sentiria culpada por nada nunca. Haveria apenas um vazio à minha volta. Mais nada.

- O ônibus quebrou. Não tem ninguém para buscá-los tão cedo. Provavelmente só chegará amanhã à noite. – disse rispidamente o motorista de um dos ônibus.

Estava livre por mais um dia. Livre para colocar os pensamentos no lugar.

Mais uma vez sozinha. Mais uma vez sem destino. Segui até o parque. O mendigo continuava lá sentado, dentro de sua bolha que o separava do resto do mundo esnobe. Senti vontade de conversar com ele. Mais uma vez não tive tempo, nem coragem, nem motivação.

O tempo mudou, o céu abriu e eu continuei ali sentada na mesma pedra. O dia parecia repetir-se. O mesmo casal, as mesmas lembranças. Continuei sem descobrir quem era o garoto.

Mais uma vez a chuva caiu. Mais uma vez eu dormi pensando em como tudo precisava voltar ao normal. Mais uma vez eu senti que algo estava errado.

O dia chegou. Acordei cedo para não fazer absolutamente nada. Passei o dia inteiro em frente à televisão com o pensamento distante. A noite chegou e eu sigo agora para a rodoviária novamente.

O ônibus em que Alisson veio está estacionado. Alguns passageiros descem. Não o vejo. Ele não veio. Não cumpriu sua promessa. Tudo não passava de um grande teatro.

Os postes de luz não funcionam muito bem por aqui. No final da rua há algumas luzes acesas, que iluminam o caminho. Me sinto como se estivesse morrendo. Estou seguindo a luz no fim do túnel e nada me faz parar. Sei que isso não mudará absolutamente nada e que amanhã provavelmente eu acordarei e irei até o parque. Sei que ficarei lá sozinha, esperando o dia em que aquele homem venha conversar. Ele não virá, mas eu sempre arranjarei uma desculpa para acreditar que não é culpa minha. Passarei meses respondendo a meus amigos que Alisson infelizmente não poderá vir, pois as notas não foram boas e como conseqüência disso ele ficará para melhorá-las. Uma grande mentira. Repetirei isso milhares de vezes até que um dia vou me cansar disso. Então mandarei um e-mail que nunca será respondido. Essa é minha sina. O amor é minha sina.

As luzes estão mais perto. Iluminam meu rosto com mais intensidade. Sinto-me abandonada e destruída, porém nenhuma lágrima corre de meus olhos agora. Não chorarei nem mais um dia por ele.

Agora as coisas fazem sentido. Talvez eu realmente tivesse um bom anjo da guarda, ou um sexto sentido afiadíssimo. Minha vida está prestes a mudar, porque eu me sinto diferente. Continuo seguindo em direção à minha casa.

Acordo. Hoje é dia 19 de dezembro, e embora fosse de se esperar, há poucas renas enfeitando as casas para o Natal. Na minha rua, apenas Dona Hilde decorou o jardim para a data festiva.

Um velho Papai Noel desbotado em um balanço na área, algumas luzes coloridas nas árvores e um tapete em forma de pinheiro enfeitam a casa. As pessoas aqui não ligam muito para datas festivas. Aproveitam os feriados para saírem ou dormir até mais tarde. Nada de anormal, é claro.

Verifico meu celular três vezes a cada dois minutos. Alisson não ligou, não mandou e-mail nem deixou recado. Por onde andaria a essa altura?

Amarro meus cabelos de qualquer jeito e saio para o pátio com uma xícara de café na mão. Está frio e não há ninguém além do velho Noel desbotado na rua. Aceno discretamente para o bom velhinho que me ignora totalmente. Acho que hoje será um daqueles dias chatos, onde eu e o controle remoto trocaremos juras de fidelidade durante os programas de televisão.

Sempre pensei que morar sozinha seria um grande desafio. Não é. A maior parte do tempo me sinto sozinha. Essa solidão tem me afetado muito ultimamente. Tanto que ando conversando com minhas pantufas de porquinhos.

Ter dezenove anos não é divertido. Namorar um garoto de dezesseis que me ignora também não. Talvez esteja realmente na hora de mudar de vida.

O café acabou e na televisão passa pela trigésima vez o episódio de uma série americana. Se um dia eu decidisse virar atriz nem precisaria estudar um monólogo. Simplesmente chegaria em frente as câmeras dizendo:

- O que é que você fez com meu carro James? A lateral está amassada e o banco tão sujo que até parece que uma vaca sentou ali!

Um homem descontraído com cara de culpado apareceria na cena gritando:

- Qual é mulher?! Eu nem amassei tanto assim! E quanto ao banco...Bem, a culpa é toda sua por me dar aquela torta de chocolate para comer. Eu avisei que aquilo ia sair uma hora, não avisei?!

Seriamos interrompidos por aplausos...

Hora dos comerciais. Nem mesmo o rádio escapa dessas chatices. Preciso sair, fazer alguma coisa para me distrair.

O telefone toca. Levo um tempo até decidir se atendo ou não. Melhor atender.

-Alô?!

-Bom dia Dora.

-Quem fala?

-Isso realmente não interessa agora. Escute bem o que vou te dizer: Não repita o que tem feito nos últimos dias. Nada de solidão no parque Dora, isso não é legal.

-Quem é que está falando?

-Não, não, não Dora! Não discuta comigo. Isso vai criar muitos problemas.

-Escuta aqui se isso é algum tipo de trote..

-Nada disso querida. Vou dizer só mais uma vez. Não repita nada daquilo ou Alisson nunca mais verá a luz.

-O que?

O terror tomou conta do ambiente. Haviam pego ele. Nada daquilo que pensei antes era verdade. Enfim uma boa noticia. Mas por outro lado, preferia ser abandonada ao invés de colocar meu Alisson em perigo.

-Somos só você e eu agora. E eu quero que seja assim! Mude Dora. Mude ou a cabeça do seu namoradinho vai mudar de lugar!

Desligou.

Não consegui reconhecer a voz, mas ela não me soava estranha. Era como se eu já tivesse ouvido aquele homem falando.

Senti vontade de correr até o parque, disfarçada com uma peruca loira e um sobretudo estilo Sherlock Holmes. Poderia até fazer isso, mas era a vida do meu namorado que estava em jogo. Eu sabia que não poderia repetir nada daquilo que já fizera a partir daquele momento. Mas eu precisava ir até o parque, precisava descobrir quem estava me espionando. Uma sensação de que eu estava sendo observada instalou-se em mim.

Segui até a porta e a tranquei. Pensei em fechar as janelas quando ouvi um ruído vindo da rua. Havia alguém ali. E o pior de tudo: aquilo não fora um acidente, quem quer que fosse, queria que eu soubesse que estava ali. Senti um calafrio subir pela espinha. No fundo, eu sabia que não me faria nada. Estava jogando comigo. Estava brincando com minha vida e isso eu jamais admitiria.

Em um súbito ato de coragem, peguei um espeto da coleção de papai. Destranquei a porta e sai gritando:

-Apareça! Apareça seu miserável!

Ninguém respondeu. O portão dos fundos da casa bateu. Ele havia escapado. Em menos de dois minutos o telefone tocou incansavelmente.

-Alô...

-Dora meu bem, não brinque com sua vidinha assim. De forma alguma você deve se dirigir a mim com esse ódio. Somos amigos, não somos?

-Olhe aqui! Seu filho da puta, eu não acredito que tenha raptado o meu namorado e se...

Desligara. Mais uma vez.

Senti uma mistura de medo e raiva apoderar-se de mim. Sem pensar duas vezes, busquei um casaco no quarto e sai de casa o mais depressa possível. Dessa vez não iria ao parque, muito menos a rodoviária. Ia até a casa de Margaret, mãe de Alisson, para contar-lhe tudo.

A rua estava completamente vazia. Não havia nem mesmo cachorros zanzando. Na casa dos Albuquerque não era diferente. As luzes estavam todas apagadas. Não havia ninguém. E agora?

Resolvi correr até a casa de um amigo para contar-lhe tudo. Talvez ele pudesse me ajudar.

Atravessei a rua e caminhei mais quatro quarteirões, nas ruas totalmente vazias de Ilópolis que agora pareciam assustadoras. Onde todo mundo havia ido?

Carlos estava sentado na calçada quando cheguei. Ao me ver de longe, já sabia que estava ali para contar-lhe algo ruim.

Conhecia-o desde os meus cinco anos de idade, e nesse tempo ele nunca mudara muito. Os óculos de aro grosso, o cabelo penteado para trás com gel e os casacos de lã com losangos coloridos. Ele sempre me ouvia atentamente, fazia cara de quem não entendeu nada e depois me ajudava muito.

Éramos amigos desde sempre eu acho. Não me lembro uma única vez em que eu senti raiva dele. Exceto todas às vezes em que ele falava freneticamente sobre como minhas saias eram curtas demais para alguém da minha idade.

De qualquer forma, Carlos seria minha última esperança. Se ele não pudesse me ajudar, então eu tinha certeza de que ninguém mais poderia. Esse pensamento me causou pânico. E se ele se negasse a me ajudar? Afinal, Carlos nunca fora muito com a cara de Alisson.

Eu o entendo. Sentiria a mesma coisa no lugar de Carlos. Na sua visão, o meu namorado não passava de um louco viciado em maldades do tipo: “apelidos mais do que maldosos” e “armários são os melhores amigos dos nerds, portanto fique aí dentro”.

Na verdade, nesses momentos eu sentia nojo de Alisson. Tinha vontade de arrancar-lhe um dos braços e usá-lo como arma para espancá-lo.

Lembro-me de algumas vezes em que briguei com ele por culpa desses atos ridículos. Gritara com ele em frente a todos os amigos. Alisson ficara furioso comigo por estar defendendo Carlos. Passamos uma semana sem nem dar bom dia. Depois, ele voltou com o “rabinho entre as pernas” para mim.

Sei que nunca fora um bom aluno, nem mesmo um homem com compaixão. Mas era meu namorado, e acima de tudo era humano. Fosse quem fosse, eu precisava tentar ajudá-lo. Afinal, fora minha culpa Alisson estar entre a vida e a morte.

Carlos ouvira com toda atenção os meus relatos. Disse-me que provavelmente essa pessoa nem mesmo conhecia meu namorado, e estava fazendo isso por diversão ou por dinheiro. Acrescentou um comentário que me deixou realmente mais abalada:

-Esse cara na certa deve ser louco por Pânico.

É verdade. Em todo aquele tempo, eu sabia que já conhecia aquela história de algum lugar. A velha desculpa de filmes de terror. A boa menina, sozinha em casa que recebe ligações misteriosas. Com certeza deveria ser um daqueles amigos idiotas de Alisson.

Pensei em Ed Kumpbel, um retardado formado com muito tempo disponível para essas merdas. Tinha uma ficha bem suja pelo que me lembrava.

Era solteiro, não fazia nada e tinha uma mente bem recheada de idéias malucas e idiotas. Talvez tivesse armado tudo aquilo. Afinal, nunca gostara de mim. Deixou isso bem claro quando me deu um susto enorme no parque de diversão.

Eu o odiava. Senti meu sangue ferver só em pensar que pudesse ter sido ele.

-Calma Dora. Vamos esperar até a próxima ligação. Grave ela!

-Tudo bem...desculpe te incomodar assim Carlos. Sei que não está com cabeça para essas bobagens desde que sua...Bem, desde aquele acontecimento.

-Sem problemas! Vou desviar minha atenção por um tempo pelo menos. Vai ser bom pra mim. E também nós não queremos que aconteça algo com você, não é mesmo?

Abriu um largo sorriso que me fez sentir um pouco melhor. Apesar de ser uma completa negação para moda, conselhos amorosos ou qualquer coisa ligada ao convívio social, Carlos tinha um coração maravilhoso. Ás vezes gostaria que Alisson fosse assim. Um pouco de bondade não lhe faria mal nenhum.

Estava prestes a me despedir dele quando percebi que havia mais alguém ali além de nós. Eu sentia.

-Carlos, tem alguém aqui com você? –disse-lhe baixinho.

-Não. Ninguém além de você.

Meus coração disparou. Olhei para o final da rua. Havia um carro vermelho estacionado. Alguém tentava desesperadamente fazê-lo funcionar.

-Ele está lá. Estou vendo!

-Fique calma. Vamos até lá como quem não quer nada. Não faça nenhum movimento brusco, entendeu?

-Tudo bem.

Seguimos devagar em direção ao carro. De alguma forma, ele percebera o porquê de estarmos seguindo em sua direção. De repente abriu a porta do carro e saiu correndo.

Como um reflexo rápido, minhas pernas apressaram o passo. Quando dei por conta, eu estava correndo atrás do possível assassino do meu namorado.Carlos ficara para trás. Éramos somente eu e o cara.

De repente, estávamos em um beco sem saída.

-Olá Dora.

Reconheci a voz na mesma hora. Não era Ed, nem um dos amigos idiotas dele. Era meu pai.

-Papai?!

Não pude acreditar nos meus olhos e ouvidos. Meu pai não poderia estar ali. Eu o vira morto há um ano, ensangüentado no quintal.

Ele havia se matado por causa de minha mãe. O casamento estava no fim. Dissera-lhe que o amor acabara-se com o tempo. Não suportou. Dois dias depois, encontrei-o no quintal de casa, morto.

Agora estava ali, bem na minha frente. Não pude acreditar naquilo.

-Onde está Alisson? O que você fez com ele?

-Ora, nada, Dorinha!

-Porque está fazendo isso comigo? Você devia estar morto! Morto e enterrado!

Meu coração batia rapidamente. Eu tremia, chorava, sentia um ódio crescendo. Percebi que não estava louca. Ele realmente estava vivo, bem na minha frente.

-Deve estar perguntando-se como é que eu estou aqui não é mesmo?- disse ele, com um sorriso gélido estampado no rosto. – Pois estava enganada. Nunca morri. Só não queríamos você por perto. Estávamos cansados da sua presença. Todos nós estávamos Dora.

- Todos nós quem?

-Eu, sua mãe, seu namoradinho. Todos nós Dora!

- Seu maluco! Não fale sobre o que você não sabe!

-Garotinha problemática. Chata. Sem graça. Cansamos de você meu bem.

Como se correntes houvessem se rompido, permiti descarregar minha raiva naquela hora. Segui na direção de meu pai.

-Seu cretino!

Alguns segundos depois, senti um calor subindo pela nuca. Não tive tempo de olhar para trás. Cai no chão.

-Acho que ela está acordando!

Ouvi uma voz de longe dizer. Era a voz de Alisson.

Abri os olhos. Estava em uma cama de hospital. Á minha volta encontravam-se meus pais, Alisson e uma enfermeira.

-Vamos cuidar muito bem de você Dora. –disse papai, com o mesmo sorriso gélido no rosto.

-É, eu sei que sim. – disse-lhe em tom de desafio.

A enfermeira chamou a família para conversar sobre minha situação. Quando voltaram ao quarto, não havia mais ninguém lá.

Agora, estou eu aqui, escrevendo minha vida, tentando fazer justiça enquanto posso. Eles estão me seguindo, eu sinto. Há um barulho lá fora. Acho que não passarei dessa noite.




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