10 de set de 2010

O vento sul daquela tarde aquarelada de laranja, fazia a gaiola branca, já enferrujada balançar. Um rangido fino e contínuo espalhava-se pelos corredores abandonados da casa. O ferro retorcia-se e soltava-se aos poucos da corda que o pendia a partir do teto.
E então, quase que inesperadamente, por detrás das sombras melancólicas que jaziam na gaiola branca, surge um animal exótico e sentimentalista. Apertando desesperadamente as barras de ferro, olha desesperado para todos os lados, com seus grandes olhos chorosos e ruídos indecifráveis.
O alarde dura pouco. Ele logo percebe que há muitos outros olhos chorosos que o observam com desconfiança, nas entranhas da escuridão daquele local. Talvez fosse seu destino. Seu caminho.
Acomoda-se devagar na gaiola, misturando-se com as sombras que o acolhem. E então, já conformado e sem esperanças, a criatura vai sussurrando baixinho uma canção de ninar.
A porta da gaiola se abre devagar. Ele levanta-se e sai. Pega sua pasta, seus documentos e ainda em profundo silêncio, vai para o trabalho.

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